quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Fluxo e contra-fluxo

O fluxo e contra-fluxo – O Feitiço e o Milagre.
Héraclito de Éfeso, o “Obscuro” (540-476 aC), afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo perpétuo. Ele também afirmou: "Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou”. Para ele, a vida estava em constante transformação através de forças contrárias.

O que podemos perceber facilmente é que em cada decisão que tomamos em nossas vidas, somos impulsionados para um destino diferente, e como o próprio rio se movimenta ora para lá e ora para cá ao confrontar obstáculos, nos movimentamos rumo ao infortúnio ou à fortuna. O rio também nos ensina que se aguardamos o suficiente, o tolo logo surgirá boiando sem direção, levado apenas pela força da correnteza, fruto da turbulência que ele mesmo causou.

“Magia” ou “feitiçaria” é um ato de interferência no fluxo. O “milagre”se realiza no contra-fluxo. Enquanto a “magia” ou “feitiçaria” trabalha com a ampliação das freqüências harmônicas da natureza do ser ou da coisa, o “milagre” é “Graça” pode ser alcançada por intervenção divina ou por força de fluxo acumulada e revertida.

Para aprender o trabalho de fluxo, o peregrino lança mão de todos os recursos disponíveis (livros, manuscritos, professores, etc.), embora seja somente através do estudo da Grande Mestra – a Natureza – que ele vá, de fato, compreender o mecanismo das harmonias naturais. O peregrino, ao ser confrontado com a Natureza, aprenderá que a Grande Mestra é absolutamente abundante e amoral. Na Natureza a relação harmônica fica mais evidente, deixando nua a disposição interna do peregrino: a Mestra nos dá exatamente o que mais temos dentro de nós mesmos. Em sua amoralidade, ela não julga nossas inclinações, e tão somente replica à nossa volta o que temos dentro de nós mesmos.

Assim, uma pessoa que se sente constantemente injustiçada somente encontrará mais injustiças, assim como uma pessoa que se sente miserável somente encontrará mais misérias. Nossos olhos encontrarão somente aquilo que temos dentro de nós mesmos: o pervertido encontrará a perversão em tudo e em todos, e o mentiroso sempre estará incapaz de perceber a verdade mesmo que ela esteja sob seu próprio nariz. Uma pessoa com inclinação genuinamente generosa encontrará sempre abundância. Uma pessoa pacífica sempre estará cercada de paz. Uma pessoa invejada verá seus sucessos se multiplicarem, enquanto uma pessoa invejosa verá em seus progressos feios abortos. O mel é sempre doce para aqueles que compreendem a harmonia e amoralidade da Natureza.

Cada vez que uma pessoa pacífica encara uma situação turbulenta, ela deverá primeiramente examinar seu interior até encontrar a raiz da erva daninha para arrancar-lhe sem dó. Tão certo quanto a Natureza é sábia, a situação se acalmará, e o oponente será o único a beber da taça amarga de seu ódio. Se nossos progressos podem ser medidos também através da qualidade da interação com nossos obstáculos e oponentes, é sábio reconhecer a necessidade deles para que possamos progredir em nossas transformações internas. Se atraímos sempre mais do mesmo tipo de oponente, é porque em última instância temos as mesmíssimas inclinações que tanto criticamos. O mesmo se dá com situações.

Quando o peregrino desperta para esta realidade, ele toma noção do trabalho interno que tem que realizar para que sua realidade externa também se modifique. Assim, lança-se às ordálias com uma atitude interessada, atento às inclinações e fluxos. Sendo a Natureza abundante de venenos e curas, ela se moldará à energia do peregrino, oferecendo novas escolhas e recompensas relacionadas à sua nova condição. Logo, o peregrino se dá conta que é capaz de realizar reações em cadeia, ao mudar sua disposição interna para um fluxo energético que lhe trará abundância de situações positivas, e como seu exterior sempre reflete sua disposição interior, verá seus negócios prosperarem, sua vida amorosa florescer e seu corpo ganhar vigor e longevidade.

A armadilha oculta dentro da magia e feitiçaria é a pretensão de se operar o contra-fluxo sem antes obter a maestria do fluxo. É aqui que se separam sábios e tolos. O “milagre”, ou “Graça”, ocorre independente de “merecimento” quando é proveniente de deidades – dada à sabedoria inescrutável dos deuses -, e enquanto operado por um mago ou bruxa, isto sempre dependerá de um sacrifício energético. Esta força energética pode ser vista, por exemplo, na capacidade que um rio possui de elevar-se usando a energia da gravidade. Para o operador, invariavelmente este sacrifício energético é vital, e o que varia é a extensão e a quantidade energética do que o peregrino já possui acumulado como resultado do fluxo de suas ordálias, ou ainda a quantidade de energia vital à disposição do operador (i.e. sacrifícios de animais, plantas, etc). Um erro na medida do que se pode lançar mão - de um ou outro - pode ser catastrófico.

Assim, é pertinente que todos nós possamos prestar atenção em nossas disposições internas. Que possamos compreender que tudo o que está à nossa volta depende do que exercitamos dentro de nós mesmos. Que nossas escolhas sejam guiadas pelo entendimento de que não é sábio buscar abundância em solo estéril, a paz em zona de guerra, e que ninguém dá o que não tem para si em primeiro lugar. Tornar-se sábio é tomar a noção da energia que você mais coleciona para si e o tipo de sintonia que você possui com energia das pessoas e situações à sua volta. Esta ordália não tem prazo para terminar, é um trabalho constante e vitalício.

Se tudo é uma questão de responsabilidade pelas nossas escolhas, é sábio que o peregrino perdoe mais, abençoe mais, seja genuinamente generoso com todos, e olhe um pouco mais para dentro dele mesmo, para o fluxo que anda lhe impulsionando através da vida. O peregrino deve sempre olhar também à sua volta para ver o quanto ainda tem que conquistar dentro dele mesmo – nem o céu é limite!

Que a Graça possa tocar os fracos e necessitados, enquanto aos fortes tudo é possível pelo seu próprio esforço e sabedoria. A Magia começa dentro de nós mesmos!